FELIPE SALUSTINO
REPÓRTER
Uma
paixão visceral pela música acompanha Maria Luzinete de Paiva Alves, de 33
anos, desde que ela entrou para as aulas de clarinete lá por meados da década
de 2000, em São Pedro, sua cidade natal, localizada no Agreste potiguar. O
sentimento pulsa em cada gesto firme e é companheiro fiel de Luzinete na missão
que adotou em 2018: comandar a Filarmônica Dr. Woden Madruga, do município de
Lagoa de Velhos, também no Agreste do Estado. Devotada ao trabalho, a maestrina
é uma das poucas mulheres à frente de uma orquestra no Rio Grande do Norte.
A MAESTRINA MARIA LUZINETE DE PAIVA ALVES PERCEBEU, AO DAR AULAS, A TRANSFORMAÇÃO DAS CRIANÇAS DEVIDO AO APRENDIZADO MUSICAL
“Cada momento que eu vivencio com o grupo me marca profundamente. Temos
uma trajetória árdua, muito minuciosa. É duro formar um músico, sabia? Porque é
preciso trabalhar todo um contexto, levando em conta a sensibilidade de cada
um. E tudo que eu idealizo para eles e que vira conquista, soa como algo muito
importante para mim”, se declara a maestrina.
Luzinete carrega no gene as habilidades para o ofício. O pai, que foi
assassinado quando ela tinha 4 anos, adorava música. Gostava de tocar violão.
Vivia fazendo festas onde ele mesmo cantava. Como herança, ficou a curiosidade
para a maestrina, que hoje descreve com afã os sentimentos que lhe rodeiam
quando está no palco. “Eu sei que eu sinto o que meu pai sentia. E a música tem
um poder indescritível de unir sentimentos. Quando a gente toca, a gente sai de
si. Não existe problema. Todo o nervosismo e ansiedade que nos cercam,
desaparecem. E eu acredito que ele [o pai] gostava de música por causa disso”.
Até participar das aulas de clarinete, Luzinete conta que a relação com
a música se limitava ao instinto de curiosidade aguçado pelas histórias que
ouvia contar sobre o pai. A maestrina é a caçula de quatro filhas. “Eu sempre
tive muita vontade de experimentar com meu pai as situações que minhas irmãs
contam ter aproveitado, porque eu cresci ouvindo que ele amava música”, relata.
Após estudar clarinete em um projeto do Governo do Estado, Luzinete
seguiu se qualificando. Estudou saxofone, trompete e trombone. Depois, retornou
ao instrumento de iniciação e passou a dar aulas, outra paixão da maestrina.
“Sou curiosa e gosto muito da educação. Passei dez anos dando aula de Música e
via como a criança e o adolescente chegavam às aulas e como era notável a
transformação deles um tempo depois. É impressionante e encantador”, relembra.
Em 2018, Luzinete passou a comandar a filarmônica de Lagoa de Velhos,
que, assim como sua porta de entrada na música, é fruto de um programa do
Governo do Estado. Em 2015, o RN Sustentável, hoje, Governo Cidadão, abriu edital
para a implantação de orquestras em 40 municípios potiguares. Atualmente, a
Filarmônica Dr. Woden Madruga é mantida pela Associação Agrofito, com recursos
da Prefeitura do Município.
Lagoa de Velhos
A filarmônica de Lagoa de Velhos foi implantada em 2015, mas só ganhou
forma em 2018, por causa de processos burocráticos. O grupo tem capacidade para
70 integrantes, mas hoje conta com cerca de 40 componentes. Todos comandados
por Maria Luzinete de Paiva Alves, numa empreitada, sobretudo,
desafiadora.
“No início, eu sofria com o machismo e com o preconceito. E o machismo
vindo de um homem, a gente, infelizmente, já espera. Mas o que me deixou mais
triste e quase me fez desistir foi perceber que tal posicionamento partia de
outras mulheres. Algumas não aceitavam me ver ali na frente. Ouvi muitas coisas
que me deixavam mal”, comenta.
“Me diziam: ‘tem certas coisas que mulheres não sabem fazer e o que você
está fazendo é uma dessas coisas’. Foi pelo menos um ano para me aceitarem
[como maestrina]”, desabafa Luzinete. Ela é a única mulher a comandar uma
orquestra dentre as 40 que integram o projeto Banda Filarmônica para a
Juventude, de iniciativa do Governo do Estado.
As dificuldades quase a fizeram desistir. O apoio veio do marido, músico
e professor da maestrina. “Tive que trabalhar muito todas essas questões de
preconceito, porque, de tanto ouvi-las, a gente acaba acreditando e vai criando
uma crença nelas. Só não desisti porque meu marido me apoia em tudo”, pontua.
O suporte que recebe do esposo é importante, especialmente porque
Luzinete não mantém contato com outras mulheres que desempenham a mesma função
que ela. “Aqui no RN só ouvi falar de duas mulheres que estiveram à frente de
uma orquestra. E, me parece que atualmente, apenas uma delas segue no comando
de uma filarmônica. Me sinto sozinha nesse aspecto. Uma vez, nós, maestros do
projeto, tivemos que nos reunir para discutir o andamento de algumas ações. Por
ser mulher e um único elemento diferente ali, eu não tinha voz”.
Atualmente, Luzinete vive com o marido em São Paulo do Potengi,
município vizinho a Lagoa de Velhos. As apresentações da orquestra se
concentram em cidades da região: além da própria Lagoa de Velhos, em locais
como Riachuelo, Rui Barbosa São Pedro e São Paulo do Potengi. No último final
de semana, o grupo se apresentou na abertura da 59ª edição da Festa do Boi, em
Parnamirim. Uma experiência que cativou a maestrina.
“Geralmente a gente se apresenta em festas de padroeiro, emancipações
políticas e desfiles cívicos. Foi a primeira vez na Festa do Boi e a
experiência foi incrível. Viemos a convite do jornalista Woden Madruga
[que dá nome à banda] e ficamos exultantes”, conta Luzinete. Provocada se
pretende alçar voos mais altos e liderar grupos maiores, Luzinete é taxativa:
“A filarmônica é a minha primeira experiência com um grupo de músicos.
Até hoje não parei para pensar em nada além disso. O que eu gostaria mesmo é de
ver a banda sendo reconhecida, porque todos são muito guerreiros. Apenas quatro
meses após o início da banda, nós já nos apresentamos em um desfile cívico. Foi
um tempo de preparação muito curto, mas nós conseguimos. Por isso, eu admiro
bastante cada um deles”, declara a maestrina.
Pandemia afetou a Filarmônica
A Filarmônica Dr. Woden Madruga é coordenada pela Associação Agrofito e
mantida com recursos da Prefeitura Municipal de Lagoa de Velhos. Por causa da
pandemia de covid-19, as atividades da banda foram suspensas por mais de um
ano. Atualmente, a orquestra conta com 40 integrantes, mas tem capacidade para
70. Malu Rodrigues, que coordena a associação, explica que a paralisação das atividades
resultou na baixa de alguns componentes.
“A pandemia dificultou muito para os músicos. Aqui são utilizados
instrumentos de sopro, os integrantes tinham que ficar sem máscara, e, além
disso, é um trabalho que exige a coletividade. Então, o risco [de contaminação
por covid-19] era muito grande. Nós paramos nesses quase dois anos e só
retornamos agora. Temos nos empenhado para que o projeto se desenvolva cada vez
mais”, afirma.
Malu ressalta a força do grupo, uma vez que, de acordo com o projeto inicial
do Governo do Estado, a previsão de repasse de recursos para a filarmônica
duraria apenas quatro meses. Segundo ela, após esse período, a Prefeitura da
cidade deu continuidade ao desenvolvimento da banda, por meio de um convênio,
firmado até hoje. “Esse convênio mantém a associação e paga o salário da
maestrina, além de garantir parcerias, como o transporte para as apresentações
da orquestra”, esclarece.
A Agrofito é uma associação voltada para a produção de fitoderivados,
que traz também um viés de apoio à Cultura no Município. Além disso, a
instituição encabeça projetos ligados à Economia Solidária e também à questão
racial. “Decidimos concorrer ao edital de banda filarmônica porque era um sonho
da cidade. Foi algo extraordinário”, sublinha. O recrutamentoé feito via
divulgação em escolas e outros projetos da cidade. A maioria dos
integrantes é jovem, mas não há restrição.
FONTE –
TRIBUNA DO NORTE – 17 DE NOVEMBRO DE 2021
